quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Uma resposta crente ao ateísmo


Cônego Henrique Soares da Costa

“Um crente não é senão um pobre ateu que todos os dias se esforça para começar a crer e o ateu é, na verdade, um crente que todos os dias se esforça para começar a não crer...”

(Bruno Forte)

I. Introdução

Um crente sério não pode e não deve simplesmente desqualificar o discurso dos ateus. É preciso admitir concretamente a possibilidade de um ateísmo positivo, como esforço heróico e, em certas ocasiões, desesperado, para reconstruir o universo inteiro, com todos os seus valores, de acordo co, a mudança radical que a negação de Deus pressupõe. Pensadores como L. Feuerbach, A. Comte, F. Nietzsche, S. Freud, J.P. Sartre, etc, pensaram o ateísmo como um verdadeiro humanismo, enquanto emanciparia o homem da tutela de um Deus, de um modo ou de outro tirano, ou alienante. Este ateísmo merece respeito e uma interlocução construtiva e honesta.

Um outro problema, quanto ao ateísmo, é que “determinar onde se acha o verdadeiro ateísmo depende do conceito preciso de Deus que se está pressupondo” (K. Rahner). Em outras palavras: de que Deus se é ateu?

Também é necessário considerar a posição subjetiva daquele que nega Deus. Como observava Miguel de Unamuno, “A maioria de nossos ateus quer que Deus não exista”.

II. Aspectos positivos do ateísmo para a fé

Sem perder de vista que numa avaliação global, o fenômeno do ateísmo é negativo, não se pode negar que a crítica atéia traz benefícios para a fé:

  • enquanto exige uma purificação na nossa idéia de Deus e sua relação com o mundo;

  • enquanto nos coloca em guarda contra um antropomorfismo vulgar na linguagem teológica;

  • enquanto nos faz manejar com mais recato a instrumento da analogia entis;

  • enquanto critica nossas imagens de Deus e suas conseqüências políticas, econômicas, psicológicas, sociais e culturais.

III. A fraqueza do ateísmo

O ateísmo nunca é o primeiro. O primeiro é a afirmação de Deus. Daí se deduz que não pode haver um ateísmo que repouse tranqüilamente em sim mesmo, uma vez que, por seu próprio caráter secundário, repropõe-se necessariamente a questão de Deus, como condição de possibilidade de sua própria negação.

Nem mesmo a filosofia analítica pode descartar com desdém a questão de Deus como sem-sentido, pois em toda afirmação absoluta do bem – e o mesmo deve ser dito de toda forma de real amor ao próximo ou à vida – está latente uma afirmação implícita de Deus, por mais que o indivíduo em questão não consiga objetivá-la conceitualmente num teísmo explícito.

O ateísmo dos séculos XIX e primeira metade do século XX quis ser sempre mais positivo, orgânico e construtivo; manifestou-se na cultura ocidental sobretudo como anti-teísmo e anti-cristianismo. Sua rejeição a Deus, no entanto, chega sempre ao aniquilamento da pessoa humana. Certamente não é verdade que o homem não possa organizar o mundo sem Deus. Mas, certamente, organizará sempre o mundo contra o próprio homem, já que o aprisiona numa imanência sufocante, que frustra os anelos mais profundos do seu coração e um sentido para a sua história (Ex: Peter Singer).

“Como fomos capazes de beber todo o mar? Quem nos deu a esponja para apagarmos inteiro o horizonte? Que fizemos quando separamos a terra do seu sol? Para onde se move a terra neste momento? Onde vamos? Para longe do sol? Será que não estamos precipitando-nos no abismo? Mas será, por acaso, que há um acima e um abaixo? Será que, antes, não estamos andando errantes em meio a um nada infinito? Porventura o vazio não nos tira o ar de que precisamos para respirar? Não está fazendo mais frio? Não nos está invadindo a noite e nada mais do que a noite?” (F. Nietzsche).

Sem considerar o homem na sua abertura transcendental, sem situá-lo em referência ao seu Donde e ao seu Aonde, o ateísmo fecha-o em si mesmo, numa imanência sufocante, que termina por despersonalizá-lo no âmago mesmo de sua existência, pois sem nenhuma referência a um Outro-Eu, a um Absoluto-Pessoal. Então, também seus sonhos, projetos, ideais, sua moral, tudo padece de consistência, pois sem uma referência absoluta. J. P. Sartre percebeu bem esse drama ao afirmar que a vida é uma paixão inútil.

A crise contemporânea dos grandes discursos diz também respeito aos grandes discursos ateus. O pensiero debole arrasa tudo! Há quem considere caducos todos os esquemas que davam por liquidados de uma vez por todas o problema religioso no Ocidente. Se já não é tão certo como se pensava o positivismo que a ciência alcance a realidade mesma das coisas, a fé não tem por que fugir ante a razão científica; se os nexos entre fé em Deus e seus condicionamentos sociológicos (K. Marx) e psicológicos (S. Freud) já não podem mais ser apresentados simplesmente numa relação de causa e efeito, então já não se pode com tranqüila segurança atribuir a experiência religiosa à alienação sócio-econômica ou psicológica.

IV. Deus: problema essencialmente antropológico

De Deus como espinho ou favo o homem não poderá fugir nunca. O grande perigo para o nosso mundo, é a renúncia a uma razão não somente teológica, mas também filosófica, entregando-se alienantemente a uma razão pragmática. O que mais amedronta atualmente é o ateísmo das massas, que sufoca a questão de Deus, juntamente com qualquer outra questão relevante para a existência humana. Mas esta negação prática e irresponsável de Deus – indigna dos grandes ateus dos séculos XIX e XX – é a mais cabal negação do homem e da sua cultura.

O caminho de J. Habermas. Num primeiro momento, desqualificou e religião e a teologia como interlocutoras sérias. Em 1974 admitiu que “talvez” nos iluminar acerca das condições que tornam humana a nossa vida, não se possa renunciar aos teólogos: (1) pela sua capacidade de linguagem apelativa e meta-comunicativa, (2) pela capacidade de consolação individual e, (3) finalmente, pela práxis semi-política que podem despertar, no sentido de um empenho ético-civil exemplar. Sobretudo o segundo aspecto é eminentemente teológico. Por último, Habermas, em 1988, reafirma claramente e sem o “talvez” a persistente legitimidade e o caráter insubstituível da religião, bem como seu direito a co-existir com o pensamento pós-metafísico.

V. A experiência da fé

Se o crente é chamado a “dar as razões de sua esperança”, não deve nunca esquecer que sua fé não se funda em argumentos racionais. É necessário rejeitar com vigor seja o racionalismo seja o fideísmo. A experiência crente não é resultado de uma equação lógica; encontra-se, antes, na misteriosa e impenetrável confluência da graça de um Deus que chama com uma liberdade que responde, abrangendo todos os aspectos do nosso ser: razão, intuição, emoção, compromisso existencial em nível pessoal e social. O crente não procura entender para crer, mas crê para compreender. Se há uma percepção fundamental naquele que optou pelo caminho árduo da fé, é a de que a razão não consegue nem conseguirá nunca abarcar o real em sua totalidade.

O testemunho de Noberto Bobbio: “Não me considero nem ateu nem agnóstico. Como homem de razão e não de fé, sei que sou imerso no Mistério que a razão não consegue penetrar até o fundo, e as várias religiões interpretam de vários modos. Para mim, o homem religioso é aquele que conserva o sentido do mistério e, portanto, dos próprios limites. O homem não pode atingir o conhecimento total do mundo no qual vive. Antes, à medida que aumenta o nosso conhecimento, aumenta também a consciência da enorme complexidade do homem e do universo. O grande homem de ciência sabe bem que, aumentando a luz da razão não diminui a sombra do Mistério Creio que o sentido religioso da vida consista em tomar consciência que o homem é um átomo minúsculo num universo infinitamente grande, do qual se conhece uma minúscula parte. Conhece muito pouco da causa. E ainda menos, ou melhor, nada, do fim. O problema religioso nasce exatamente da pergunta (sem resposta): Para quê?”

É importante compreender que fé e razão não se opõem nem se negam. Se a razão deve gozar de uma legítima autonomia, no entanto, é verdade também que, sozinha, não pode realizar o ser humano. A razão ilumina-se de verdade e é potencializada, quando se abre à luz da fé, que não a sufoca, mas a leva ao máximo de sua capacidade e dignidade.

Para o caminho do crente cristão, sempre será presente o mistério da cruz, para o qual ele está crucificado para o mundo e o mundo estará crucificado para ele. A cruz impede que o crente espera simplesmente um teísmo tranqüilo do baixo. Também impede que o cristão esqueça que o homem carnal e o homem psíquico não são capazes, em última análise de compreender as coisas do Espírito de Deus: não lhes é possível. Por isso mesmo, a primeira palavra de Jesus é: “Convertei-vos!”

Por outro lado, a cruz significa para o crente cristão a certeza de um Deus que se faz presente no mundo do modo mais surpreendente possível, numa total solidariedade com o homem no seu peregrinar e no seu tatear histórico.

V. Conclusão: A necessidade de uma fé madura na vivência e no modo da apresentá-la

Hoje, mais que um testemunho teórico-racional de Deus, o mundo espera um testemunho que seja crível em nível de edificação da família humana. Neste sentido, já Karl-Otto Apel tinha lançado seu pesado desafio à religião. Cabe aos cristãos testemunhar um Deus que nos faz maduros, engajados na construção da existência pessoal e comunitária; um Deus que não concorra com o homem, mas encontre sua glória no homem vivo, no homem realizado, no homem de pé. Um Deus filantropo, libertador e promotor da vida.